Uma tela

Sinto-me feliz ao ver sua mensagem, ao ouvir aquele barulhinho e pensar que é você, ao passar nosso tempo, qualquer que seja ele, juntos. O tédio de hoje no almoço só foi transponível por sua presença e palavras, talvez vãs talvez sábias, mas ainda assim reconfortantes pelo fato de ter sua presença ao meu lado, aquela sensação de companhia a todo momento...
Sorri ao lhe desejar boa noite, sorri um riso gostoso que conforta a alma e acalenta o peito, sorri para depois olhar em volta, para longe da tela e ver o mundo que me cerca, sair da fantasia e voltar para a realidade, me servir novamente da miscelânea de sabores adocicados e pungentes e tentar preencher o vazio deixado pela brevidade do seu sorriso, ainda que digital, apaziguador dos meus males.
Agora me encontro aqui mirando a cama vazia e lembrando das dores nos pés, que por poucos momentos se fizeram esquecer, choro um amargo choro de solidão, se pensar que tudo aquilo não passou do nosso silencioso mundo de cliques e cloques da tela, da rede e do pensamento... que tudo isso é vago, irreal, quiçá em vão.

deglutição

Estou eu aqui de novo, nessa situação estranha e desconfortável... ao canto, longe da luz "pra não estragar a paisagem", apenas olhos brilhando saindo das sombras e poeira da consciência e desejo... isso sempre, o desejo de participar do ritual, de integrar o homúnculo.
Belo bolo, imaculada diáfana luz que projeta o prisma de efêmera felicidade diante daqueles seres na dança, escondendo as facetas apodrecidas em sombras de natureza escusa. Glacê e chantili cobrem aquela presença divinal que resplandece, uma representação suprema, divindade encarnada em forma de prazer gastronômico... e inicia-se o abate, o primeiro golpe é ritual, pertence ao homenageado da vez, assim como a parte mais suculenta, o topo, que ele come com voracidade dilacerando a tenra massa e fazendo escorrer por entre seus lábios a calda, não são morangos, é uma visão magnifica, o contraste entre duas existências digladiando, que pena que a podridão do recheio penetra a pele e infesta com seus tentáculos a visão que antes era de um ser perfeito, agora, apodrecido, putrefato, cancroso, ele se vira, sinalizando que o ritual já está concluído, que os outros podem agora aproveitar.
Garfos e facas se lançam em direção do totem-bolo, mãos alcançam e agarram com afinco suas presar, partes de corpos escondidas por graciosa cobertura... são porcos se refestelando em sua própria sujeira.
Nenhum pedaço, migalha ou farelo alcança meu espaço, apenas observo o desenvolvimento da cena, o apodrecimento dos corpos, sorrisos mutilados forçados por cicatrizes miasmadas. Os outros seres da escuridão se aproximam de mim, intrigados pelo acontecimento, receosos, assim como eu... afinal se aproximar desses seres que escamoteiam suas intenções e manipulam as coisas para nos provocar mais calos e chagas é arriscado.
Independente dos avisos eu prossigo em direção a eles, estão todos jogados ao chão como peças de carne inerte, saciados com sua lavagem, agora é nossa vez de comer as sobras, os resquícios de felicidade que emana, escavar por areia em meio a um mar de rubis.
A despeito da forma e localização eles mais que imediatamente se levantam e levam as coisas para outro lugar, deixando o ambiente cirurgicamente estéril.
Abandonado e sem as coisas, ressentido, volto para minhas sombras, aparentemente apenas elas me amam sem exigir nada em troca.

Noite sem lua

A escuridão da noite e a neblina escondiam os perigos daquela noite nos subúrbios, ela chorava de dor com o bebê contorcendo desejando sair, sem auxilio correu em direção ao único que poderia lhe ajudar naquela hora, o velho que vagava na praça perto de onde ela procurava comida, boas latas de lixo, os restaurantes dali eram bem generosos com os cães abandonados, não é culpa dela ser mais forte que todos eles e sempre pegar os melhores pedaços.
A dor, lancinante, cada vez mais escuro e enevoado, como se ela não estivesse mais na cidade, as pessoas se transformavam em sombras dismórficas conforme ela corria, se contorcendo pelo peso do filho e pela mudança de forma. A praça estava estranhamente silenciosa quando ela chegou, apenas o velho meio que dormindo encostado numa arvore ao lado do coreto.
Estranho, por que o cheiro daqui é tão acalentador? Terra e chuva... Que canção é essa? E de onde surgiram todos eles? Velhos, novos, todos irmãos. Um novo filho da matilha chega ao mundo, todos vem cantar e comemorar, os uivos formam a canção dos irmãos e todos se aproximam trazendo seus conselhos, palavras de apoio, alguns até comida e outras oferendas. Sou carregada pelos irmãos e encorajada, ele será forte e sábio! Olho para o céu, agora que a neblina se reduz, como que dançando com nossos corpos. Uma noite sem lua, que Gaia proteja este pequeno ser, seu filho por meio de mim.
O velho se aproxima dizendo algumas palavras de calma, seus olhos se fixam em mim, a hora chegou, as contrações pioram, eu deito no chão. Alguém trás uma lata enferrujada, dentro dela água brilhando prateada, eles me lavam e lavam a pequena cria enquanto ela vem ao mundo.
Um lobo?!
Uma pausa na cantoria, o tom do velho muda, todos festejam embora receosos, é raro um lobo nascer dessa forma, pelo menos ele é normal...
O sono me toma, sou embalada pelos uivos de parabenização da matilha, a densidão do escuro e o que resta de neblina vão sumindo, as sombras das pessoas voltam a aparecer, a tomar forma, enfim, nasceu meu filho.

pequeno gesto

Aquele dia não podia se tornar mais cinza, insosso, o ápice do marasmo e mediocridade; um dia comum.
Aquela hora não passava mais lentamente, minutos compassados numa melodia de ordem e ritmo constantes, nem um tempo fugindo aos compassos, todos eles seguindo um rígido padrão.
Então como o sol na alvorada transformando as alvas brumas da solidão veio o sol do olhar no elevador, aquele de soslaio, como que desinteressado, mas que podemos sentir que cai sobre nós, uma torrente de sensações inflamando pelo momento, os aromas deixando de ser o ranço impregnado da usual mistura de lavanda e rosas para ser uma miscelânea de odores e timbres suaves ou pungentes. Como se uma redoma de vidro fosco que estivesse transformando o mundo e tirando toda sua cor levasse-o para um novo estado, o nirvana dos sentimentos. Fecho os olhos, uma respiração profunda, um arrepio, mais olhares.
Abro os olhos novamente para o mundo que se apresenta ao meu redor. não mais no mesmo lugar, não mais no mesmo tempo, o jardim é um bom lugar para se estar, calmo o suficiente pra podermos descansar e silencioso para as meditações, apenas aquela porta parece deslocada, afinal uma porta de elevador no meio de um jardim é uma coisa deveras peculiar.
meus pés sentem a relva dançando com a brisa, seu verde fazendo caricias na desnuda pele.
"Por que ela sempre escolhe esse lugares idílicos?"
Olhando ao horizonte o céu e suas matizes em uma aurora de cores dançantes fazem o que artistas clássicos poderiam chamar de perfeito. Chega disso! Levanto minha bengala e bato com o bico de bronze do corvo na aurora quebrando-a numa chuva se redondos cristais coloridos que caem quicando e fazendo barulhinhos de apitos pelo chão.
A figura esguia e pálida da nobreza se aproxima de mim dizendo com voz doce e aveludada: "Então chegaste querido bobo, e nem foste anunciado? Lastimável, o estado de decadência que este reino chega.", estende-me a mão, beijo seus gélidos dedos e então chega a hora de mudar a face e as aparências, retorno da reverência com a negra pintura do sorriso resplandecendo em minha face.
"Ora, e quando alguém de tão inebriante requinte, 'le creme de la creme', como moi precisa de anunciação alteza?" A voz afetada necessário retorna pra mim, assim como uma pirueta e um giro das pernas. "Então, magnânima magnífica excelentíssima persona mui grata, a quem mais devemos a honra neste momento?"
Um único tom toca, acordo do sonho, as pessoas se debatem em mim, meu andar é o próximo.

O Segundo Travesseiro

- Aquela revolução não foi anarquista!
- Não mesmo, tinha um príncipe como líder dela, filho do atual rei, mas os historiadores normalmente não contam isso...
- É... tem um livro muito bom e acessível que fala sobre isso, tá aqui em algum lugar... - Ele mexe na pilha de papéis e nas gavetas - Achei! Páginas 326 e 327, Nova História Moderna, a capa é assim... - Me mostra uma cópia das páginas do livro com seções marcadas sobre o assunto.
Neste momento a atração que existe apenas cresce, é quase um sonho... não, é um sonho, de verdade, meu corpo tá doendo e a cabeça explodindo de tanto tempo que eu passei dormindo, mas tá tão bom! Dorme de novo ai seu desgraçado!
Ele foi olhar o céu do terraço, como essa luz deixa tão lindo seu sorriso, os olhos ternos e apaixonados, tudo que eu sou agora, até mais ele é 5 anos mais novo... quase o príncipe encantado.
Chegou uma mensagem de vídeo, 5 minutos, terminamos o namoro mas eu não consegui esquecer aquelas palavras doces, por que em todos os momentos felizes ele deseja me derrubar, como ele adivinha isso?!
O que existe do amor me faz abrir o vídeo e vê-lo, ele está deitado, sem camisa... ai como sinto falta daqueles abraços de beijos ternos no pescoço e no peito... Suas palavras são semi-compreensíveis, uma torrente de informação da qual eu só capto alguns momentos, as cenas mudam rápido, ele agora está deitado em outra posição, agora está de pijama, agora está em outra cama, agora tem alguém do lado dele. Ele se aproxima, dá um beijo no ombro e aquele sorriso aparece ao mesmo tempo na tela e no terraço, a luz cálida é só pra me martirizar e faz o sofrimento piorar, no vídeo, o beijo no ombro é correspondido com outro, eles sorriem um para o outro e se abraçam... assim o vídeo acaba e como que em um balé orquestrado ele vem do terraço na minha direção, com aquele sorriso matador.
Acordo chorando, por que me persegues e estragas minha vida até em sonhos?
É certo que sinto sua falta, que me falta os beijos, abraços, a companhia, me falta os sorrisos doces e a volúpia.
Mas ele... é como se unisse a você e as coisas boas que aconteceram entre nós alguns dos meus desejos e anseios, aqueles que me fazem olhar para ti hoje com certo repúdio por me acusares de comete-los e fazer as coisas muito pior.
Sinto falta de alguém na minha cama, alguém pra ocupar esse lugar vago.